Com a ajuda do meu irmão primogênito João, adquiri um lote no (Lake City), charmoso bairro às margens do lago Guanabara, ladeado pela belíssima mata. Melhor dizendo, pela volta da mata, isso nos anos 90. O objetivo era construir uma aconchegante casa com vista para o majestoso Cassino, palco de memoráveis carnavais, bailes de debutantes, show do Nelson Gonçalves, entre outros, que tem como pano de fundo a estonteante Serra das Águas.
Com o passar do tempo, o lote foi ficando pequeno para os sonhos. Imaginava construir uma boate, que se chamaria VIRTUOSA, em homenagem ao antigo nome de Lambari, que era Águas Virtuosas. Sempre gostei de dançar, a dança parece me libertar das amarras que a vida, por vezes, nos impõe. É um momento mágico.
Novos fatos ocorreram, sendo o mais importante deles o nascimento do meu filho. Passei a imaginar um gramado lindo, igual àqueles de filme, quadra, piscina, cachorro, papagaio, bicicleta, pônei, tudo convivendo na mais perfeita harmonia, até ocorrer uma interrupção causada por compreensíveis conflitos familiares, inerentes à convivência humana, c’est la vie (assim é a vida).
Mais uma vez João me apresentou a oportunidade de vender esse lote e adquirir o atual terreno, onde está em construção a Estação Baden. A propriedade pertencia ao Sr. Oswaldo.... e Dª Ilda, amigos do meu irmão, com os quais tive a satisfação de desfrutar momentos de alegria.
A escritura de compra e venda foi efetivada. Este contexto me remete à infância. Cresci ouvindo palavras como escrituras, procurações, traslados, ad rogo, libelo acusatório. Parecia-me impossível entender o significado de tudo aquilo. Não era raro ver minha mãe trabalhando à noite, tirando cópia de documentos à mão, afinal não existia máquina de xerox. Imagine! Fazer traslado de escritura para aquelas numerosas famílias! Recordo-me de um livro, em especial, que, sem brincadeira, era do meu tamanho. Acho que era de testamento, parecia ter pulado dos contos de fadas.
A ficção misturava-se com a realidade, minha mãe tentava bravamente contar pra mim e Zali (a Stela devia estar conversando com a vovó Ruth) os contos infantis. Entretanto, chapeuzinho vermelho, bela adormecida e os queridos três porquinhos mesclavam-se com os atores forenses: juízes, promotores e advogados, personagens sempre presentes na labuta diária de meus pais, que tinham como cenário o antigo Cartório do 2º Ofício Judicial, Notas, Títulos e Documentos e Pessoas Jurídicas da Comarca de Lambari, do qual provinha nosso sustento.
Entre aquelas cochiladas, que a cabeça dá um tranco e parece que vai se desconectar do pescoço, minha mãe esforçava-se para concluir a história. Eu e Zali ríamos baixinho e ficávamos na expectativa do tão esperado final feliz. Acho que as histórias nunca terminaram, e que bom que podemos escrevê-las e reescrevê-las a qualquer instante.
Lembro-me do Rely, Buruti, Tião D’ovídio, Seu Clides, Dr. José Astério, todos amigos do meu pai. O cartório era na parte de baixo da casa da Tia Maria Rita, na rua Dr. Wadih Bacha. Todos esses nomes, pessoas, fatos e interpretações dos fatos compõem alguns dos elementos que inspiraram e nutrem meus sonhos, que insisto em realizar.
Bem, devidamente lavrada a escritura, o registro do respectivo imóvel foi efetuado no Cartório da Rita Lisboa, afinal, como filha de tabeliães, sou bem avisada de que (quem não registra não é dono). Já se aproximando o final de 2001, procurei o Rubinho (Rubens Lobo) para iniciarmos a construção da casa que hoje serve de apoio ao salão de festas. Juliana Rodrigues, a arquiteta, passava as orientações, nem sempre seguidas, e, na noite de 27 de abril de 2002, deu-se a festa inaugurativa, nas palavras do discurso improvisado do Rui Bacha, vulgo Jucalino.
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